A antropologia desconhece, uma sociedade que consome carne humana como alimento. O canibalismo sempre foi simbólico. Ou se devoram os inimigos, como faziam os Tupi do litoral brasileiro no século XVI, em impressionantes cerimônias coletivas, ou se pratica uma antropofagia funerária e religiosa. Aí, a ingestão das cinzas dos mortos homenageia e ajuda a alma daquele que morreu. Esse ritual ainda hoje faz parte dos costumes dos Yanomami.
Se as cerimônias Tupi apavoravam pelo que tinham de brutal, o ritual dos Yanomami é capaz de chocar o senso comum dos brancos pelo que tem de inesperado. Para um Yanomami, comer as cinzas do amigo morto é uma prova de respeito e afeto.
Há 25 mil Yanomami nas montanhas da fronteira do Brasil com a Venezuela, numa das áreas mais remotas e intactas do mundo. Desses, 10 mil estão em território brasileiro. Moram em mais de 100 aldeias, falam 4 dialetos e mantêm um estado de guerra intermitente uns com os outros. Para todos eles, não há morte natural. Morre-se pela ação dos inimigos ou pela trama de um feiticeiro. Portanto, toda morte requer vingança.
Esses Yanomami praticam o endocanibalismo (devoram pessoas da própria tribo). É uma cerimônia que reitera do compromisso de vingar o morto.
Fontes
Araweté: Os Deuses Canibais - Eduardo Viveiros de Castro, 1986.
Comendo Como Gente - Aparecida Villaça, 1992.
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| O "belo", porém bizarro, ritual de luto dos índios Yanomami. |
Há 25 mil Yanomami nas montanhas da fronteira do Brasil com a Venezuela, numa das áreas mais remotas e intactas do mundo. Desses, 10 mil estão em território brasileiro. Moram em mais de 100 aldeias, falam 4 dialetos e mantêm um estado de guerra intermitente uns com os outros. Para todos eles, não há morte natural. Morre-se pela ação dos inimigos ou pela trama de um feiticeiro. Portanto, toda morte requer vingança.
Esses Yanomami praticam o endocanibalismo (devoram pessoas da própria tribo). É uma cerimônia que reitera do compromisso de vingar o morto.
O ritual organiza um estado de hostilidade permanente, a cerimônia é quase uma eucaristia. Só os amigos sem laços de consanguinidade são convidados para o funeral. diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional.O cadáver é pranteado e colocado sobre uma plataforma, fora da aldeia. A carne é separada dos ossos e cremada. Os ossos são limpos e moídos num pilão até virar cinza. No funeral, os vizinhos e aliados comem as cinzas com purê de banana.
Ao contrário do culto cristão do ancestral, a antropofagia Yanomami realiza o apagamento total do antepassado. Tudo o que era do morto é destruído e seu nome deixa de ser pronunciado. Como o espírito deseja companhia, atraindo os vivos para a morte, todas suas posses e traços são destruídos para que ele viaje para o mundo dos mortos – que fica nas “costas do céu”. Até pegadas, na mata, são apagadas. Explica Viveiros de Castro.Até o final dos anos 60, os Wari de Rondônia também praticavam o endocanibalismo. O ritual funerário era bem elaborado. Os mortos eram pranteados durante dias, com a família agarrada ao cadáver. Convidavam-se os amigos de outras aldeias para o funeral. O corpo era cortado e os ossos, quebrados. Alguns órgãos eram cremados. Fígado e coração eram assados embrulhados em folhas. Desfiados e estirados em uma esteira, eram comidos, entre lágrimas, com pão de milho assado.
Fontes
Araweté: Os Deuses Canibais - Eduardo Viveiros de Castro, 1986.
Comendo Como Gente - Aparecida Villaça, 1992.

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